segunda-feira, 8 de abril de 2013

"Chico Salvado Pirolito" natural de Balurcos


Pequena nota

Como verificaram logo à primeira vista, vamos apresentar hoje um novo colaborador pois a nosso convite acedeu a prestar o seu auxílio ao ALCOUTIM LIVRE tornando-o assim ainda mais versátil e pujante.

É sempre uma honra para nós podermos contar com um novo estilo e uma nova visão das coisas. Pelo pouco que conhecemos, estamos certos que o nosso novo colaborador irá criar, como todos os mais o têm feito, leitores assíduos aos seus textos, ora em prosa, ora em verso.

O Eng. José Rodrigues, hoje na situação de reformado, é natural do concelho de Alcoutim mas naturalmente não reside lá.

Aqui lhe deixamos o nosso agradecimento e que com a sua acção possa contribuir para um melhor conhecimento de Alcoutim e do seu concelho com a verdade que é apanágio deste espaço.

Inicia o seu trabalho com uma “versalhada” em que caracteriza os homens e as mulheres da terra a que tem gosto de pertencer, procurando utilizar os termos próprios das gentes e as actividades que balizavam as suas vidas.

JV

 


Escreve

José Rodrigues




Chico Salvado Pirolito,
natural de Balurcos

(Este conjunto de quadras é uma homenagem ao passado, de muitos homens e mulheres da minha terra.)


Em noite chuvosa e fria,
De mil novecentos e tal,
Não preciso bem o dia,
Mas era no mês de Natal,

Nasceu um lindo mocito,
Filho querido e adorado,
De Zé Custóido Pirolito,
E de Sarafina Salvado.

Nos Balurcos foi parido,
Por obra da graça Divina,
Depois do Zé ter perdido,
O juízo pla Sarafina.

Aos seis meses baptizado.
P´lo padrinho ficou Chico,
P´la mãe quedou Salvado,
E pelo pai Pirolito.

Cresceu com tantas agruras,
Que nem a ler aprendeu,
Foram muitas amarguras,
Q´a puta da vida lhe deu.

Homem sem ser menino,
Roubaram-lhe a ilusão,
Foi moiral em pequenino,
Aos quinze anos, ganhão.

Aos vinte deixou a Terra,
Assentou praça militar,
Obrigado a ir à guerra,
Sem razões pra garrear.

Depois desmobilizado,
De volta à terra natal,
Como futuro: o passado,
Pra continuar tudo igual.

De manhã migas de pão,
Para beber, café preto,
Ao jantar, jantar de grão,
À ceia, fejão careto.

Ainda esteve emigrado,
Mas não foi muito feliz,
Dizia não se ter dado,
Com os ares de Paris.

Voltou de vez prá Terra,
Onde tinha a namorada.
Homem que nasce na serra,
Não troca a serra por nada.

Casou com a Etelvina,
Toda vestida de branco,
Tiveram uma menina,
Que foi de si o encanto.

Matavam sempre um cevão
Pra ter carne para o ano,
Com festa na matação,
Propagando o desengano.

Toucinho na salgadeira,
E a choriça pendurada,
Durava menos q´uma jeira,
E tinha que ser condutada!

Todos os dias trabalho,
Sempre o mesmo fandango,
Alguma noite de balho,
No outro dia, acefando.

Colhia batatas em Março,
Em Dezembro era o mato,
E com seu macho picarço,
Alquevava de carramato.

Despunha couves na horta,
Alfaces, coentros, fejão,
Até já tinha a vista torta,
De tamanha esganação.

Em Outubro semeava trigo,
Mondava a seara em Fevereiro.
Só podia contar consigo,
Era assim o ano inteiro.

Não só consigo, contava,
Porque a Etelvina Maria,
Fazia a lida da casa,
Do nascer ao fim do dia.

Colhia figos em Agosto,
As ferrovas em Setembro,
Em Outubro espremia mosto,
Fazia azeite em Novembro.

Pra montar tinha um burrito,
E uma cabra pra dar lête,
Por companhia um canito,
Q´acudia por Manolete.

Quando vendia um chibinho,
Pela feira de S. Marcos,
Sempre dava algum jetinho,
Pra arramendar os sapatos.

E uma porca no curral,
Criava alguns bacoritos,
Que na feira do Azinhal,
Dava mais uns testanitos.

Um dia acordou o Monte,
E a má nova correu,
Ontem, à meia nonte,
O Pirolito morreu.

Abateu-se uma desgraça,
Ficou sem pai a menina,
A casa ficou sem graça,
E viúva a Etelvina.

Levaram-no a enterrar,
E diante do corpo do Chico,
Eram todos a encomendar,
A alma do Pirolito!