quinta-feira, 14 de junho de 2012

A pesca no Guadiana em Alcoutim

Pequena nota

Este texto vai fazer em breve trinta e cinco anos de publicação.

Traduz o que então consegui reunir sobre a temática, por alguma leitura nesse sentido, efectuada nas poucas saídas a locais onde existiam bibliotecas, pela minha própria observação e pelas indispensáveis informações prestadas por pescadores, nomeadamente, Francisco António João, vulgo Chico Balbino, retirado da actividade depois de ter estado emigrado na Alemanha. Era muito habilidoso e depois do regresso ainda construiu, praticamente sozinho, um interessante barco.

As coisas hoje são muito diferentes, mantendo-se como não podia deixar de ser os elementos base.

Muito menos gente dedicada à pesca, a arte de colher está completamente extinta, quando a conheci, era ainda bem activa, a diminuição do peixe provocado por factores adversos tendo desaparecido a ligação pescador / arrieiro.

Nos últimos anos tenho sentido bastante dificuldade em encontrar muge de Alcoutim e quando isso acontece, é uma festa!

O artigo que foi publicado na primeira página do jornal com seguimento, naturalmente numa interior foi ilustrado por uma fotografia que acompanhava quase todos os artigos que ia publicando e que se tratava de uma zincogravura que fazia parte do arquivo do jornal. Nesse tempo, ainda era
assim!

Aqui fica este texto, que penso, continua a ter algum interesse a sua leitura.

JV


(PUBLICADO NO JORNAL DO ALGARVE DE 30 DE SETEMBRO DE 1977)

O Guadiana, Alcoutim e Sanlúcar. Foto JV, 2011

É a pesca uma actividade que prendeu e prende o homem da região alcoutinense.

Com o Guadiana a seus pés, riquíssimo em variadíssimas espécies de peixe, tais como: muge ou mugem, barbo, eiró, sável, saboga e por vezes robalo, toda a zona fluvial mantém interesse pela pesca, com relevo para “os montes do rio”, designação local que engloba os povoados de Montinho, Laranjeiras, Guerreiros do Rio e Álamo.

Gasómetro
Nos afluentes (ribeiras), aparecem a saboga e a lampreia, apreciado ciclóstomo.

Ainda que em pequeno número, o alcoutinense tem-se dedicado à pesca, fazendo dela o seu modo de vida. Raros são, assim, os habitantes da zona que não conhecem rudimentos da arte de pescar, e fazem-no por divertimento.

São várias as maneiras que o pescador utiliza para apanhar o peixe.

Fisga
A pesca ao candeio, caída em desuso, já é referida por Baptista Lopes na sua Corografia do Algarve (1841). Efectuada à noite, com o auxílio da lancha, um dos pescadores vai remando e o outro, colocado à proa, mune-se do candeio (utilizava-se um gasómetro) e da fisga, espécie de arpão normalmente com dez dentes. Devido à luz, o muge aproxima-se e o pescador com um golpe ágil, ferra-o. Falta dizer que na extremidade dos dentes da fisga, situa-se uma espécie de anzol para evitar que o peixe se solte.

É o muge o único que vem ao candeio e este género de pesca praticava-se a partir de S. João, até Outubro.
A pesca à colher é outro tipo de pesca muito característico do pescador do Guadiana. Basta um homem para praticar tal arte. A lancha, apetrechada com a colher que consiste em duas varas bastante compridas que formam entre si um ângulo agudo, coberto por rede, onde se colocam chumbadas, dirige-se para a margem, indo fazer aquilo que o homem do rio chama, “pescar contra a terra”.

Barco armado de colher. Foto JV, 1973
A colher, colocada à ré, afunda-se pelo manejo do pescador que vai remando em direcção à margem. Próximo dela, atira pedras ora para a direita, ora para a esquerda, ora para a frente, tentando a junção do peixe sobre a rede que, quando muito próxima da margem, é levantada. Na rede, formando saco, encontra-se o peixe saltitando.

O mesmo sistema é utilizado, com poucas variantes, para pescar “ao meio da água”, aproveitando as correntes.

Pescar ao tresmalho, parece que foi sistema trazido por pescadores do Vouga que para Alcoutim teriam vindo em tempos não muito recuados, na expectativa de melhores pescarias. O tresmalho é uma rede de três panos, sendo o do meio de malha mais cerrada. É fabricada pelos pescadores com linha número trinta, mas ultimamente utilizam fio de naylon.

Pescando a “alematar”, na linguagem do pescador, dois homens vão de lancha fundear as redes que se prendem pelas extremidades a duas fateixas. A rede estende com o peso das chumbadas e os pescadores regressam. Passadas uma ou duas marés, vão levantá-las.

Com o mesmo tipo de rede, mas agora com seis panos e dois barcos, um de cada lado, vão fazendo o cerco ao peixe, batendo com os remos na água e assim provocando a sua junção. Utiliza-se este género de pesca para aproveitar o “peixe de entrada” O Verão é a época mais propícia para a sua prática.

Outras artes são utilizadas pelo pescador do Guadiana.

Covo
O covo é uma espécie de cesto comprido, feito de verga e com duas entradas. Colocado junto à margem e a ela preso, é iscado com tremoço e destina-se ao barbo. Pratica-se mais no Inverno.

A nassa é uma espécie de cesto de forma afunilada, feito de arame, com uma única entrada e que se destina à eiró. Iscado com sardinha utiliza-se em toda a época.

O palangre consiste num fio a que chamam madre e ao qual se prende, de espaço a espaço, outros fios curtos em cujas extremidades se colocam anzóis. Estes fios tomam o nome de “braceladas”. Nos extremos da madre, colocam-se pedras, que deverão assentar no fundo do rio. Espaçadamente, colocam-se mais pedras para o fio não levantar, arqueando. Duas bóias indicam a posição da arte.

O palangre é transportado na banastra, tipo de peneira sem fundo, onde se enrola a “madre” e se fixam os anzóis. Este tipo de pesca utiliza-se todo o ano. Para o barbo, isca-se com figos secos, minhoca, camarão, batata frita ou “porca-sara”. Para a eiró utiliza-se a sardinha, camarão e minhoca.
Barcos de pesca junto ao cais velho. Foto JV, 1973
 O tapa-esteiro era outra maneira de pescar que caiu completamente em desuso. Como o nome indica, a entrada da ribeira era tapada com uma rede munida, na extremidade, de chumbadas, para que ficasse estendida. Depois do baixar da maré, os pescadores entravam na ribeira com “rodiscas” (arco circundado de rede, em tipo de funil e com um cabo, normalmente de cana, chegando-lhe a água até à cintura.

Apanhavam assim o peixe, uma vez que a água existente era relativamente pouca e a passagem para o rio estava vedada. Esta arte é agora proibida.

Presentemente, os sistemas mais utilizados são o tresmalho, palangre e a colher, este nos “montes do rio”.

O pescador do Guadiana considera o muge de três espécies: o muge propriamente dito, o saltor, de cabeça mais arredondada e que salta com frequência e daí o nome e o negrão, pela cor escura. Pesca-se com mais frequência no Verão.

Para o barbo, que chega a atingir oito e mais quilos, enguia e boga, é o Inverno a época mais propícia, aparecendo o sável e a saboga nos meses de Fevereiro e Março.

A Primavera oferece-nos a saborosa lampreia.

Ultimamente têm aparecido alguns exemplares de trutas, carpas, achigãs e solhos.

O pescador tem normalmente um contracto celebrado com o arrieiro a quem unicamente vende o peixe e este compromete-se a comprar-lhe todo o que apanhar.

Arrieiro é o homem que conduz bestas de carga e daí a manter-se ainda essa designação, pois seria este o processo utilizado para o transporte e venda pelo concelho e vizinhos. Com a evolução natural, as alimárias foram substituídas pelas bicicletas a pedal, depois por motorizadas e presentemente mesmo por furgonetas que se deslocam a grande distância.

Muge
O muge de Alcoutim tem fama em todo o litoral algarvio e os vendedores nos mercados apregoam e chamam com frequência a atenção dos compradores, dizendo que aquele é de Alcoutim, o que origina mais vezes a compra devido à garantia apresentada.

A transacção do peixe, do pescador para o arrieiro, faz por pesadas de três quilos, feitas com muita corrente e que são contadas por exemplares que se colocam num monte à parte, para no fim se contarem. Este peixe pertence também ao arrieiro.

Em determinadas épocas a abundância de muge é tanta que os pescadores não pescam mais por haver dificuldades em o colocar.

Actualmente atravessam uma crise de tal ordem que obrigou ao afastamento temporário de pescadores para outras actividades.

Os pescadores do Guadiana têm como principais pontos de pescas, Mértola, Pomarão, Penha de Águia, Alcoutim, Laranjeiras, Guerreiros do Rio, Álamo e Foz de Odeleite.

Muito recentemente, começaram a utilizar nas lanchas pequenos motores fora de borda, para as deslocações, por vezes longas, se tornarem mais rápidas e menos trabalhosas.