quinta-feira, 26 de abril de 2012

Urbanos cultivavam hortas






Escreve

Gaspar Santos


Está na moda e todos os dias os jornais falam de Hortas Urbanas. Hoje cabe referir como nos anos 40 e 50 do século passado os alcoutenejos já faziam esse cultivo, mas não lhe davam este nome.  
Quando o sargento Alfredo Lopes ainda não estava aposentado da Guarda-fiscal e a minha irmã Cremilde trabalhava nos CTT ele fez o comentário que ela cita algumas vezes: As pessoas em Alcoutim não têm muita iniciativa para criar o seu próprio trabalho. Ao contrário das de Martinlongo onde há mais iniciativa!

Minha irmã, escandalizada, nunca mais esqueceu tal afirmação. E, gostemos ou não, temos de concordar que sendo ela proferida nos finais dos anos 40 do século passado, ainda hoje quase se pode dizer o mesmo. Vale a pena reflectir sobre o porquê disto. A freguesia de Alcoutim tinha então, uma quantidade de pessoas com situação invejável, empregadas nos serviços: Câmara Municipal; Celeiro; CTT; Direcção Estradas; Escolas Primárias; Farmácia; Finanças e Tesouraria; GNR; Guarda-fiscal; Guarda-rios; Hospital; Notariado e Registo Civil.
Eram cerca de 165 pessoas (ou famílias) com empregos em serviços, que nem todas as outras freguesias juntas tinham. Como empregos desejáveis que eram, as pessoas daqui procuravam-nos e assim não eram muito estimuladas a criar o seu próprio emprego.
Mas se ambicionavam um emprego destes, quando o tinham, muitas vezes, não se limitavam só a ele. Nesse tempo, muitos desses trabalhadores dos serviços, na falta de outra ocupação, dedicavam horas do seu descanso a cultivar pequeninas hortas. Tinham uma ocupação muito saudável, e colhiam novidades que ajudavam a sua economia caseira. Hoje não são em tão grande número pois, pelas razões mais diversas, se abandonaram hábitos agrícolas.
É impressionante pensar que temos um modelo económico que exporta parafusos para importar pão, como bem disse há poucos dias o arquiteto Ribeiro Telles.

Por outro lado começa a estar na moda a exploração da terra em pequenas hortas por vezes dentro das cidades, havendo até Câmaras Municipais que abrem inscrições para entrega destas pequenas parcelas com cerca de 45 m2, a que dão o nome de Hortas Urbanas.

Na rua em que moro em Lisboa as casas têm atrás um pequeno espaço que pode servir para horta ou jardim, e na frente só para jardim. É engraçado ver, ultimamente, sempre que para lá vai novo inquilino, o entusiasmo deste ou dos familiares na limpeza e preparação do cultivo deste espaço.

Eu que vivi a época áurea da agricultura em Alcoutim e que via de minha casa e do meu local de trabalho os serros cheios de searas de trigo, pouco rentáveis é verdade, e pedacinhos cultivados de pequenas hortas, sempre tenho escrito acerca da necessidade de cultivar os nossos campos para não termos que importar alfaces, alhos, cebolas, batatas, cenouras, couves, pepinos, pimentos e muitas mais hortaliças e frutas nomeadamente uvas de sabor desenxabido.

Tenho referido a este propósito e dado como exemplo os antigos grandes agricultores. Hoje chegou a hora de recordar muitos pequenos agricultores que não eram profissionais. Estes após a saída do seu trabalho nos serviços dirigiam-se para o campo, cada um para a sua hortinha donde tiravam algum proveito, ocupavam horas de lazer e faziam exercício físico que aliás não era ainda moda. Eram urbanos a cultivar Hortas na periferia da urbe.

À tarde após as 17 horas víamos pessoas, entre outras, como o Arnaldo Rodrigues, Francisco Palma irem direito ao Alcaçarinho; António Felício, Luís de Brito, José Peres, para o Barranco do Poço das Figueiras; Alfredo Lopes e José Amaral para o Barranco da Amarela; Leopoldo Martins para o Serro da Eira; António Santos para a Lourinhã; Alfredo Afonso e Domingos Mariano, João Batista, António do Rosário, Manuel Guerreiro para as hortas entre o Pego das Portas e o Pego Fundo. E dos agentes da Guarda-fiscal, quem não tinha a sua Hortinha?

Os Guardas da secção de Alcoutim faziam a sua horta mesmo em frente, no Pinhão. Os guardas nos postos ao longo do rio, na proximidade destes. Dedicando-se ainda nas horas vagas à pesca dos barbos com o covo de vime.

E hoje? Se os agricultores profissionais quase desapareceram e os campos estão abandonados, quase só se cultivando os pedacinhos mais rentáveis, nomeadamente aqueles em que há alguma água para regar, os agricultores não profissionais já quase não existem.
Revitalizar esse hábito seria saudável e rentável. Estou a lembrar-me e a insistir no cultivo da vinha. Uma cultura que se dá muito bem no vale do Guadiana e que nunca foi muito expandida no nosso concelho porque teve de dar o lugar aos cereais. Por todo o nosso país cada vez se explora mais a videira, às vezes em locais com pouca aptidão para tal. E em Alcoutim, porque não cultivar a vinha que tem tão boas condições para isso?