sábado, 6 de novembro de 2010

O Rip Curl Pro Peniche 2010... e mais qualquer coisa

Pequena nota

Com a devida vénia transcrevemos hoje o artigo publicado no Jornal de Peniche On Line, em 18 do passado mês, do nosso colaborador, José Miguel Nunes e que já mereceu a transcrição em órgãos da especialidade.
A sua visualização no original já ultrapassou o meio milhar.
Não fazendo parte de uma temática que nos interesse, tivemos contudo o cuidado de o ler e apreciar pelas interrogações que apresenta e pela colocação de dedos em algumas das feridas que o autor considera.
Possivelmente poderão existir alguns visitantes/leitores deste blogue que se interessem por estes assuntos.


JV





Escreve

José Miguel Nunes




Foto: Rui Alexandre/Supertubos Peniche Portugal
É sexta-feira, estou sentado na esplanada dos Supertubos, terminou o RIP CURL PRO PENICHE 2010 (eu gosto mais de lhe chamar assim do que RIP CURL PRO PORTUGAL, são coisas de quem está no surf não há dois anos, mas há mais de vinte), voltou a normalidade, estão meia dúzia de pessoas na praia, exceptuando o pessoal que ainda desmonta a estrutura.

Que grande campeonato que tivemos, arrisco a dizer que foi ainda melhor que o “THE SEARCH” no ano passado. Peniche e as suas ondas mostraram mais uma vez que são um local de excepção para a realização de eventos de surf, pois têm características que poucos locais no mundo podem apresentar.

Começámos com os “trials” na praia dos Supertubos, onde as ondas que partiram nesse dia fizeram jus ao nome da praia, não é preciso dizer mais.

A prova feminina teve lugar no Lagido, com ondas muito boas, e há quem diga, ideais para as meninas poderem mostrar todo o seu surf. Até aqui nada mais se poderia pedir nem a Neptuno, nem à organização.

No Domingo, dia 10, arranca a prova masculina nos Supertubos num mar muito forte, com ondas entre os 2 e os 2,5 metros, desorganizado, e a obrigar os atletas a um esforço enorme para poderem mostrar o porquê de serem a elite do surf mundial, quando nesse mesmo dia estavam a partir ondas muito melhores no Pico da Mota, o local alternativo desta prova, a organização lá teve as suas razões para esta opção. No dia seguinte os Supertubos voltam a estar de gala, como são exemplo, os sete tubos seguidos de Kelly Slater ou os nove de Travis Logie, foi um grande dia de surf.

Terça-feira, o "swell" caiu bastante, e então foi necessário rumar até ao Pico da Mota, que apesar das condições não serem as ideais, ainda deu para uma nota dez de Owen Wright e ver o Jadson André mandar dois aéreos na mesma onda, assistia-se a bom surf, era afinal para isto que o publico se deslocou até à praia, e as expectativas não estavam a sair goradas, bem pelo contrário.

Quarta-feira…, bem, quarta-feira deu para tudo, deu até para chegar aos Supertubos e ver ondas de dois metros a partirem perfeitas sem uma única pessoa dentro de água… e o campeonato a decorrer no Pico da Mota, com condições medianas, isto a rondar a hora de almoço, claro que no fim da tarde o cenário já não era este. Acredito que foi uma “borla” com que a organização quis brindar os surfistas que se deslocaram a Peniche para assistir à prova, assim também eles puderam usufruir dos Supertubos no seu melhor, é que isto afinal não é só para os “prós”.

Quinta-feira, dia de todas as decisões, novamente Supertubos, não de gala, mas com boas ondas, e até assim tudo correu de feição a quem estava a assistir à prova, pois para além do "show" de aéreos e “pauladas” animais com que os “prós” nos brindavam, o desejo da grande maioria dos espectadores era uma final entre os dois primeiros classificados do "ranking", e foi isso mesmo que aconteceu, faltava apenas a cereja no topo do bolo… e não é que Kelly Slater ultrapassou a sua "malapata" em território nacional com uma vitória que ficará para a história, tanto no surf Penicheiro, como no surf mundial, no mais que provável décimo título do melhor surfista de todos os tempos.

Foi sem dúvida um grande campeonato, mas isto já toda a gente disse, mais coisa menos coisa, é unânime a opinião relativamente a esta etapa e à qualidade das ondas de Peniche, aliás, diga-se em abono da verdade, se a qualidade das ondas de Peniche por alguma razão pudesse ser minimamente posta em causa, já aí estariam alguns em fila de espera para o levar para outras paragens, e não para tão longe de Peniche como possam imaginar, pois acreditem que existe por aí muita dor de cotovelo por Peniche ter uma prova do "World Tour".

E já que começámos a falar daquilo que ninguém abertamente diz, vamos continuar, e até podemos começar pela Tertúlia “Na onda do Surf: Desafios e Soluções”, ideia que me pareceu desde o início bastante engraçada, e que criou em mim alguma espectativa, no entanto esta gorou-se passados poucos minutos de lá estar. Em primeiro lugar notei a falta de um representante do Península de Peniche Surf Clube (PPSC) na mesa de convidados, já que o objectivo, e passo a citar, era: “Promover um espaço de diálogo e conversa sobre a prática do SURF, na perspectiva económica, financeira, social e desportiva e contextualizar esta modalidade no desenvolvimento local de Peniche…”, parece-me que faria todo o sentido, mas isto, obviamente é apenas a minha opinião. Em segundo, ouvi falar muito pouco do surf em Peniche, ouvi falar foi do surf a nível nacional e ouvi falar de muitas outras coisas que nada tinham a ver com surf, o que me leva a classificar aquela iniciativa como pouco mais que engraçada, valeu a ideia, esperemos que no futuro possa ser melhor aproveitada. Em terceiro, o que mais ouvi foi um verdadeiro desfilar de bajulações entre os presentes, e já agora, em jeito de esclarecimento, alguém da plateia agradeceu ao José Farinha, grande amigo meu por sinal, o facto de ter sido o primeiro a trazer fatos para Peniche, não é verdade, foi o Miguel Taveira, mas parece-me que o Miguel, e não sei qual a razão, já não entra nestas contas, parece haver um certo esquecimento relativamente a tudo aquilo que o Miguel representou para o surf em Portugal, mas para mim entra, e sempre entrará quando se falar de surf em Portugal, e principalmente de surf em Peniche, por isso aqui está a minha palavra para ele.
Agora relativamente à Rip Curl, a Rip Curl faz campeonatos em Peniche há vinte e dois anos, a Rip Curl veio instalar-se em Peniche por causa da onda dos Supertubos, antes da Rip Curl vir para Peniche já existia a onda dos Supertubos, e depois de a Rip Curl se ir embora de Peniche continuará a existir a onda dos Supertubos. É preciso que se diga que a onda dos Supertubos é um activo (economicamente falando) de Peniche e apenas e só temporariamente da Rip Curl.

[Cidade de Peniche. Rua Alexandre Herculano. Foto JV, 2010]

A Rip Curl aumentou o seu volume de vendas em um milhão e quinhentos mil euros depois do sucesso do “The Search” no ano passado, esse sucesso deveu-se em grande parte devido à enorme qualidade das ondas de Peniche. Tendo como termo de comparação que o Rip Curl Pro 2010 teve um investimento de um milhão e seiscentos mil euros por parte de todos os patrocinadores, parece-me que o negócio não é mau, pois só uma fatia desse investimento cabe à Rip Curl.

Voltando ao activo que é a onda dos Supertubos, e já que o sucesso da Rip Curl também passa pelo aproveitamento das condições que esta onda proporciona, acho que seria de toda a justiça que a Rip Curl apoiasse o clube de surf que representa os locais daquela onda, mas um apoio que seja consentâneo com o sucesso que a marca granjeou e granjeia pelo facto de aproveitar a excelência das ondas desta terra, e não uma migalha envergonhada só para dizerem que apoiam. A Rip Curl tem pelo menos o dever moral de o fazer, se não pelo facto de ganhar muito dinheiro por estar associada a uma das melhores ondas do mundo, então que seja pelo facto de ter sido extremamente bem recebida pela comunidade surfista local desde o primeiro dia em que chegou a Peniche. Possivelmente, o agora responsável pela Rip Curl não se lembra desse dia, mas eu lembro-me, e muitos outros surfistas de Peniche também se lembrarão, e acima de tudo sentíamos muito orgulho de uma marca como a Rip Curl ter escolhido Peniche para se implantar em Portugal, hoje não sei se será tanto assim… nós entrávamos na Rip Curl como se entrássemos em nossa casa, nós falávamos com os responsáveis máximos pela Rip Curl como amigos e surfistas que partilhávamos as mesmas ondas, os mesmos dias bons, os mesmos dias de “flat”, falávamos a mesma linguagem, hoje será assim? Não me parece, a Rip Curl tornou-se uma casa estranha para a maioria dos surfistas locais… no surf como eu o entendo, tem de haver mais qualquer coisa que não só o negócio, e essa qualquer coisa no meu ponto de vista está a perder-se na relação existente entre a Rip Curl e os surfistas de Peniche… é pena.

Ainda há mais qualquer coisa a dizer relativamente ao surf em Peniche, e agora não me refiro à Rip Curl, que é o seguinte: não se esqueçam que o surf em Peniche não são só os quinze dias de campeonato do "World Tour", com “prós”, imprensa e miúdas na praia por todo o lado, e depois esperar pelo próximo ano para andar novamente nas luzes da ribalta, não, o surf em Peniche é durante o ano todo com condições que não são as melhores, o surf em Peniche mais do que precisar (e precisa, sempre fui um dos seus maiores defensores) do campeonato do mundo cá, precisa de condições para os seus surfistas poderem praticar a modalidade que gostam com condições dignas para o fazer, e estou a falar de acessos às praias, estacionamentos, duches, praias sem a poluição como a que se vê no Molhe Leste e segurança com rondas por parte da polícia aos estacionamentos de modo a evitar assaltos e carros roubados.

Peniche cidade passou novamente ao lado deste evento, mas também não é de estranhar, não se passou nada em Peniche que fizesse com que as pessoas cá viessem, ao menos um concerto com bandas locais já era capaz de ter animado o fim-de-semana do meio da janela de espera, mas que admiração, pois se até a festa de lançamento deste evento que iria ser realizado em Peniche, nas ondas de Peniche, nas excelentes ondas de Peniche, teve lugar em Lisboa, a uma centena de quilómetros do local do evento, não percebo porquê, talvez tenha sido para o “jet set” alfacinha não ter de se deslocar até tão longe para participar nesta badalada festa, só pode.

Tivemos um excelente campeonato mesmo sem o surf Penicheiro ser devidamente apoiado, podemos voltar a ter um excelente campeonato mesmo sem o surf Penicheiro ser devidamente apoiado, como alguém já disse, poder podemos, mas não é a mesma coisa…