segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Luís "Ferreiro", um caçador magistral

Pequena nota
Finalmente fiquei a “conhecer” Luís "Ferreiro" de quem ouvi falar logo que cheguei a Alcoutim há mais de quarenta anos.
Em 1985 quando publiquei Alcoutim, Capital do Nordeste Algarvio (Subsídios para uma monografia), por falta de melhor conhecimento, limitei-me a escrever a p. 314: - Alguns caçadores fizeram época e Luís “Ferreiro” ainda hoje é lembrado pelos seus extraordinários feitos cinegéticos.
Só gente entrada na idade e bem poucos se lembrarão deste alcoutenejo que deu cartas na arte de caçar, como bem demonstra o nosso colaborador Gaspar Santos. É mais um texto que faltava escrever e enriquecer o passado alcoutenense.
Obrigado pela lição, Amigo.

JV






Escreve

Gaspar Santos





Chamava-se Luís Fernandes Teixeira, mas o nome pelo qual era conhecido, e usamos como título, agregava o nome da sua profissão, precedido de mestre que era. Mestre Luís Ferreiro.

Faleceu no princípio dos anos 50 do século passado, quando ainda nem tinha 60 anos. Estava tranquilamente a trabalhar na fábrica de foices, quando a morte quase súbita o ceifou. Nem deu tempo a que chamassem o médico. Tinha ainda muito para dar nas duas actividades em que era mestre. Uma como ferreiro e serralheiro e a outra como caçador. Estava porém muito envelhecido devido à vida dura que, por um lado lhe saíra em sorte, e por outro a que impusera voluntariamente.

Como serralheiro ele era um grande mestre na Fábrica de Foices de Alcoutim que já descrevemos neste blogue. Além da sua tarefa normal na têmpera das foices, fazia outras peças como âncoras de barcos, fisgas, camas ou outras que lhe encomendassem. Mas o que ele mais gostava de executar e que quase saía do âmbito do seu trabalho era reparar as “fecharias” de espingarda.

Os seus pais eram espanhóis. Ele era natural de Alcoutim, onde terá nascido por volta de 1896. Foi mobilizado para a Grande Guerra de 1914/1918 na frente africana no Norte de Moçambique, nas margens do Rio Rovuma. O objectivo desta frente era impedir que as tropas alemãs estacionadas na África Oriental Alemã se apossassem da nossa colónia de Moçambique pois a Alemanha tinha declarado guerra a Portugal.

É aqui, na guerra, que lhe cabe em sorte uma parcela do que digo ser uma vida dura. Esteve perdido alguns meses dos seus camaradas em plena floresta, onde havia cobras, caça grossa e animais ferozes. Tinha apenas para sobreviver uma espingarda de balas de um só tiro de cada vez e cerca de uma centena de balas.

Foi lá que aprendeu duas coisas para sobreviver. Teria que se defender e alimentar de animais; e caçá-los, gastando poucas balas.

Nessas caçadas não podia ser muito selectivo na espécie e qualidade. Praticava no mato aquilo que depois continuou toda vida, como ele dizia em luso-espanhol, - “tudo o que voila caçoila”.

Sempre seguiu este lema, estendido a tudo o que corre ou nada. Era capaz de comer e comia tudo o que mexia. Uma vez caçou uma raposa. Das nádegas da raposa tirou uns pequenos bifes que colocou em vinha de alho durante uma semana. Fritou os bifes na “sacristia” anexa à oficina, para petiscar com os habituais amigos. Nenhum conseguiu comer os bifes tal era o cheiro a cão que deles se libertava.

Perdido na floresta do Norte de Moçambique poupou as balas e refinou o tiro, de tal maneira que onde punha o olho a bala ia ter. Ganhou o jeito e o gosto por caçar. Quando o conheci ele era capaz de atingir com tiro de pistola uma moeda que lhe atirassem ao ar.

[Rua de D. Sancho II. Nas casas com barras viveram os pais, ele e a irmã Isabel]

Ao longo da sua vida foi um caçador de excepção, ficando como lenda os seus feitos cinegéticos. Mas se durante a caçaria encontrava um ribeiro com peixes virava pescador. Deitava-se imediatamente à água vestido, para os pescar estivesse frio ou calor, e continuava a caçar todo molhado como se nada fosse. Pensava-se que esta prática terá contribuído para as dores reumáticas incapacitantes que mais tarde o afligiram.

No seu trabalho, na oficina das foices, a espingarda estava sempre ali por perto e se uma garça ou gaivota pousava em frente na ribeira ele ia fazer o gosto ao dedo.

Como caçador, desde jovem e até muito tarde, foi muito afeiçoado à sua espingarda. Ele que até fazia e alterava as espingardas dos outros! Já toda a gente usava espingardas a cartuchos, ainda ele usava uma espingarda de carregar pela boca. Valia-lhe a eficiência com que a carregava em plena acção de caçar. Esta arma tinha um cano, para dentro do qual ele deitava a “olho” (sem rigor) a pólvora que levava dentro de um polvorinho (um grande chifre de vaca); depois cobria a pólvora com uma “bucha” de trapo, e, em cima os bagos de chumbo e mais trapo que calcava com a vareta.

Esta espingarda dava só um tiro, após o que tinha de proceder à manobra de recarga. O meu pai, que muitas vezes o acompanhou também a caçar, dizia ser espectacular vê-lo a correr atrás de uma lebre ferida, ao mesmo tempo que carregava a espingarda.
Às vezes saía um coelho ao meu pai e ele dizia “atira-lhe Santos”. O meu pai atirava, falhava e só então ele atirava atingindo o coelho em distância quase impensável – beneficiando da corrida menos sinuosa do coelho, espevitado pelo medo do primeiro tiro.

Muitos caçadores não gostavam de caçar com ele. Por se envergonharem de falhar muito em comparação com ele; porque ele os utilizava como “batedores” dando-lhes instruções que lhe colocariam a ele a caça a jeito; ou, como havia quem referisse, por ele usar uma técnica manhosa para lhes ficar com a caça, atirando um segundo tiro muito em cima do primeiro já dado. Simulava assim ter matado a caça… já morta.

Outros caçadores, como o Prof. Amaral, o José Simões, o Fernando Martins e o Vitoriano Ferreira diziam ter aprendido muito com ele.

[Luís "Ferreiro" preparado com os seus cães para mais um caçada]
Obtinha sempre grandes quantidades de caça e por isso levava um ajudante para lha transportar. Muitas vezes teve nessa tarefa um seu colaborador da oficina conhecido por António Pandareta, antes deste se tornar também um hábil caçador. Nos últimos anos de vida já tinha algumas dificuldades de marcha devido às dores e por isso chegou a caçar algumas vezes montado numa besta.

Luís Ferreiro matava muita caça e por isso ficou lenda. Nem sabia quantas peças trazia e, por vezes, o seu ajudante perdia algumas peças durante o percurso. O destino do que caçava era comê-la, oferecê-la e vender de porta em porta na Vila, tarefa que destinava ao ajudante. Com alguma frequência oferecia perdizes ao Senhor Luís de Brito amigo que conhecera em Alcoutim e com quem privara em Moçambique antes de regressar da Guerra.

Não há dúvida que o mérito deste caçador não tinha comparação com outro, não só na pontaria que era notável, mas também no saber bater o terreno e a prever onde a caça iria surgir. Mas havia ainda outro factor importante – havia nesse tempo muitos coelhos, lebres e perdizes. Caçava-se todos os dias durante a longa época da caça, sendo curto o período de defeso. Em anos mais recuados, nos anos 20 e 30 caçou-se ao perdigão durante a fase de “namoro” destas aves, com uma perdiz engaiolada a servir de isco ou com uma corneta simuladora da “fala” da perdiz.

Ainda no final dos anos 40 acompanhei algumas vezes o Fernando Martins ou o José Simões, uns “pichotes” comparados com ele, e, depois de sairmos das repartições às 17horas nas tardes curtas de Inverno, não era difícil trazer entre 3 e 4 peças com uma pequena volta nas imediações da Vila, tal era a densidade de, coelhos, lebres e perdizes.

Luís Ferreiro a pescar enguias ao “ramulhão” ou muges com a tarrafa era um espectáculo gostoso de presenciar.

Casou com uma senhora natural do Álamo de nome Margarida Madeira. Deixou uma filha desse casamento a Isabel Teixeira, e tem ainda um filho de nome Américo que gostosamente nos cedeu uma fotografia do Pai.

[Monumento aos Mortas da Guerra 1914/18, em Lisboa]

Em texto que escrevi no Jornal do Baixo Guadiana sobre um incêndio ocorrido em Sanlúcar e que este homem apagou, em colaboração com o senhor António do Rosário, dizia que ambos estavam habituados ao fogo e que sabiam usar as mãos e a cabeça.

Também já escrevi noutra ocasião que foi este amigo que, tinha eu 12 anos, me levou ao segundo casamento do meu avô José Santos no Montinho das Laranjeiras. Fomos no barco que transportou o oficial do Registo Civil. Nem ele nem eu tínhamos sido convidados, mas ele chegou e disse: “Senhor Santos, se o senhor tivesse morrido nós aqui estaríamos. Como é a festa do seu casamento nós cá estamos na mesma”. E a verdade é que fomos muito bem recebidos e divertimo-nos na boda.

Sempre houve uma certa amizade entre a nossa família e a família de Luís Ferreiro. Meu Pai também foi mobilizado e participou na Grande Guerra mas na Flandres. Minha Mãe era amiga da mulher dele e ambas naturais dos Montes do Rio. Já depois da morte de mestre Luís Ferreiro, meu Pai contraiu um segundo casamento com a irmã dele de nome Isabel Fernandes Teixeira.

Aqui fica uma achega para conhecermos mais uma figura de Alcoutim, por quem tínhamos apreço e estima.