sábado, 18 de outubro de 2008

Quem salva a secular Capela de Sto. António, na Vila de Alcoutim?




(Foi publicado no Jornal do Algarve de 18 de Maio de 1984)

Nota Prévia
Este artigo, escrito para a imprensa regional há vinte e quatro anos e que trago agora a este blogue, é só um de alguns que tenho escrito em defesa da pequena vila raiana e realizado ao longo de quarenta anos. O José Varzeano foi, é e será sempre um crítico daquilo que pensa que está errado. As minhas críticas não são de agora, são de sempre.

Foi com um título igual, mas referente à Capela de Nossa Senhora da Conceição, que em 4 de Maio de 1974, neste periódico, tentámos alertar a opinião pública e a dos responsáveis, para a ruína que se aproximava.

Ainda que desse escrito não tivesse resultado nada de palpável, talvez o “bicho que morde a consciência” germinasse.

É-me grato referir, hoje, que a Capela de Nossa Senhora da Conceição, se não foi recuperada totalmente, sofreu obras de beneficiação que evitaram a prevista ruína. A Edilidade, salvou a honra a tempo.

Dizíamos então nesse “escrito” e à guisa de introdução, entre outros assuntos, o seguinte: “Fala-se com frequência no derrube da Capela de Santo António, fronteira à residência que a tradição aponta como tendo sido condal…”.

Já em 22 de Setembro de 1973, e continuo a citar este jornal paladino do Algarve, o nosso saudoso amigo, Luís Cunha, por nós alertado, procura defender de ataque vândalo, a Igreja da Misericórdia. Tudo em vão.

Apesar de nos encontrarmos a algumas centenas de quilómetros, chegam-nos vozes “certeiras” do breve derrube daquela velhinha capela, sem ser necessária a habitual expropriação, já que, segundo consta, o “proprietário” satisfaz-se com a construção de uma nova, noutro local.

É velha a ambição de alguns mostrarem ao forasteiro, o que não lhes pertence: a alva Sanlúcar do Guadiana. Mas existem maravilhosos miradouros naturais que têm como fundo aquela povoação do país vizinho! Lembramos, por exemplo, o do Cerro da Castanha onde se situa o posto retransmissor da RTP, para o qual só falta acesso, se mais não fosse possível fazer.

Situada na parte baixa da vila, junto do Guadiana, além de servir para o que foi erguida, tem sido utilizada para tudo, desde escola, no século passado, a arrecadação nos nossos dias, passando por casa mortuária.

Consideramo-la, principalmente pela sua singeleza, um ex-libris da vila.

Se se pretende puxar o turismo do litoral como parece, para a serra-ribeirinha, são necessários, sem dúvida, empreendimentos como alguns que estão em curso, mas é indispensável conservar, melhorar sem desvirtuar, o pouco que a vila oferece e de que a igrejinha faz parte integrante. Bem basta o que tem sido feito, impossível de reparar!

Se é conveniente tornar o local mais airoso e amplo, derrubem a antiga escola, ainda que seja uma boa construção, mas não matem a velha capelinha. Quando muito, limpem-lhe a sacristia, um pouco desfasada. Embelezem o local, ajardinem-no, transfiram para lá o “busto”do Dr. João Francisco Dias, mas tomem em consideração e como ponto fulcral a Capela de Santo António.

Piquem e reboquem as paredes, reparem o telhado mantendo a velha telha, se o óculo for de pedra e constituir uma peça única, como pensamos, limpem-no das camadas de cal que os anos têm sobreposto. Mantenham o interior. Só precisa de cal. Não toquem no solo ladrilhado. Se assim fizerem, no conjunto terão a peça de maior valor e … Sanlúcar continua a ver-se.

Com a ponte sobre a ribeira de Cadavais (ou de São Marcos) e estando a vila a projectar-se para o lado de lá, não destruam o pouco que existe na parte velha (bem basta o que já foi feito!) e invistam na vila nova.

Esperemos que o bom senso evite mais uma catástrofe e a Capelinha de Santo António se mantenha de pé por muitos e muitos anos, como ex-libris da vila.
Os vindouros julgarão.

N.B.
O Jornal do Algarve de 1 de Junho seguinte, traz a seguinte notícia:
Na Rádio Renascença, o “Apontamento do Dia” do Jornal das Regiões”, de 24 do mês findo foi exclusivamente dedicado ao artigo que recentemente publicámos do nosso prezado colaborador, José Varzeano, com o título “Quem salva a secular Capela de Santo António na vila de Alcoutim?”.


Por outros dados que vim a obter, estou convicto que o meu escrito acabou por ajudar a salvar a capelinha, hoje recuperada e que constitui um ex-libris da pequena vila do Guadiana.